O Minimalismo na Revelação: Uma Análise Técnica do Revelador Kodak D-23

1. Introdução

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O revelador Kodak D-23, introduzido pela Eastman Kodak Company em 1944, representa um marco na simplificação da química fotográfica aplicada. Criado em um contexto onde o Kodak D-76 já era o padrão consolidado da indústria, o D-23 surgiu para atender à necessidade de um revelador que minimizasse o risco de defeitos físicos (como pinholes) em emulsões sensíveis e oferecesse um controle superior sobre o contraste em cenas de alta faixa dinâmica.

Enquanto o D-76 é uma fórmula MQ (Metol-Hidroquinona), o D-23 utiliza apenas o Metol como agente revelador, o que o define quimicamente como um revelador de "agente único". A intenção da Kodak era oferecer uma solução robusta, de fácil preparo e com propriedades compensatórias intrínsecas, ideais para fotógrafos que buscavam suavidade tonal e a preservação de detalhes tanto nas sombras quanto nas altas luzes de forma simultânea.

2. Usuários Famosos e Expoentes Técnicos

2.1. Defensores e Usuários Históricos

O D-23 tornou-se indissociável da fotografia de paisagem de grande formato e da aplicação rigorosa do Sistema de Zonas.

  • Ansel Adams: O mais proeminente defensor do D-23, Adams utilizava o revelador extensivamente, especialmente em sua técnica de revelação em duas etapas, para lidar com o contraste extremo das paisagens do Oeste Americano.
  • Alex Luyckx: Pesquisador e fotógrafo contemporâneo, Luyckx defende o uso do D-23 para "domar" filmes modernos de grão tradicional, como a linha Fomapan, destacando sua capacidade de tornar o grão orgânico e a gama tonal extremamente rica em filmes de ISO alto.

2.2. Críticos e Perspectivas Divergentes

Nem todos os especialistas em química fotográfica consideram o D-23 a escolha ideal para o fluxo de trabalho contemporâneo.

  • Anchell e Troop: No livro The Film Developing Cookbook, os autores argumentam que o D-76 é a escolha mais coerente para a maioria das situações. Eles apontam que o D-23, por depender exclusivamente de Metol e grandes quantidades de sulfito, pode resultar em uma perda indesejada de acutância (nitidez de borda) devido à alta ação solvente do sulfito de sódio sobre os cristais de prata.

3. Prós e Contras: Análise Técnica

O uso do D-23 envolve um compromisso consciente entre a estrutura do grão e o controle de contraste.

3.0.1. Vantagens (Prós)

  • Capacidade Compensatória: Naturalmente impede que as altas luzes fiquem bloqueadas (densidade excessiva) enquanto permite que as sombras continuem a se desenvolver.
  • Simplicidade Alquímica: Composto por apenas dois componentes básicos, o que facilita o preparo manual e reduz drasticamente erros de pesagem.
  • Estabilidade e Longevidade: Apresenta excelente vida útil em prateleira (shelf-life) e grande previsibilidade de resultados ao longo do tempo.

3.0.2. Desvantagens (Contras)

  • Perda de Acutância: A alta concentração de sulfito (100g/L) tende a "arredondar" os contornos do grão, o que pode reduzir a percepção de nitidez em ampliações críticas.
  • Perda de Velocidade Real: O revelador frequentemente exige uma exposição adicional (ex: expor um filme de ISO 400 como ISO 250 ou 320) para garantir densidade suficiente nas sombras.

4. Fórmula Padrão (Kodak D-23)

A eficácia da fórmula reside na interação binária entre o agente redutor suave e o conservante alcalino.

Table 1: Composição do Kodak D-23
Componente Quantidade
Volume Final Desejado (ml)
Água destilada (aprox. 52°C) 750 ml
Metol (Elon) 7,5 g
Sulfito de Sódio (Anidro) 100 g
Água para completar ml

4.1. Funcionamento Químico

  • Metol (Elon): Atua como o único agente revelador. Em um ambiente de pH moderado, ele trabalha de forma lenta e progressiva, sendo particularmente eficiente na revelação das sombras e impedindo o aumento excessivo de contraste.
  • Sulfito de Sódio: Cumpre tripla função nesta fórmula: atua como conservante (evitando a oxidação precoce do Metol), provê a alcalinidade necessária para ativar o revelador e age como solvente de haletos para garantir o grão fino.

5. Fórmula de Reforço (Kodak DK-25R)

Para manter a atividade do revelador em processos de uso contínuo, utiliza-se o reforçador para repor os agentes consumidos e estabilizar o pH da solução.

Table 2: Composição do Reforçador DK-25R (D-23 Reforço)
Componente Quantidade
Volume Final Desejado (ml)
Água destilada (aprox. 52°C) 750 ml
Metol (Elon) 10 g
Sulfito de Sódio (Anidro) 100 g
Metaborato de Sódio (Kodalk) 20 g
Água para completar ml

5.1. Substituindo o Kodalk (Metaborato de Sódio)

O Metaborato de Sódio é um preparado que não é tão fácilmente achado, a fórmula pede 20g desse compontente. Ele pode ser substituído por uma associação de 80% de Borax e 20% de Hidróxido de Sódio (Soda Caustica).

Table 3: Composição do Reforçador DK-25R (Substituição de Kodalk)
Componente Quantidade Observações
Volume Final Desejado (ml)  
Água destilada (aprox. 52°C) 750 ml  
Metol (Elon) 10 g  
Sulfito de Sódio (Anidro) 100 g  
Bórax (Decahidratado) 16 g Adicionar antes da Soda
Hidróxido de Sódio (Soda) 4 g Adicionar após dissolver o Bórax
Água para completar ml  

5.1.1. Notas sobre a Manipulação Química:

  1. O Hidróxido de Sódio deve ser manuseado com extrema cautela (EPIs recomendados).
  2. A reação entre o Bórax e a Soda Cáustica em solução gera o Metaborato de Sódio necessário para elevar o pH ao nível do Kodalk original.
  3. Certifique-se de que o Bórax esteja totalmente dissolvido antes de introduzir a Soda para evitar a formação de precipitados insolúveis ou reações exotérmicas localizadas.

5.2. Dinâmica do Reforço

O processo de reforço no D-23 utiliza o Metaborato de Sódio para compensar a queda de pH e o acúmulo de subprodutos ácidos da revelação (ácido bromídrico).

"O protocolo padrão de reforço recomenda revelar os primeiros 3 rolos de filme 135 (ou equivalente em área) por litro de solução stock sem qualquer alteração de tempo. A partir do quarto rolo, deve-se adicionar entre 22ml e 30ml de solução DK-25R para cada novo rolo processado, descartando o volume excedente da solução original para manter o volume total de 1 litro."

6. Fórmulas de Duas Etapas

A revelação dividida (divided development) separa a fase de absorção química da fase de ativação e redução dos haletos de prata. O objetivo primordial é a exaustão controlada do revelador nas áreas de maior exposição, preservando os tons médios e sombras.

6.1. Ansel Adams (Variação Dividida do D-23)

Adams utilizava o D-23 como Banho A para saturar a emulsão, seguido de um Banho B acelerador.

Etapa Solução / Componente Função
Banho A Solução Stock D-23 Saturação da emulsão com Metol
Banho B Solução de Bórax 1% Ativação e exaustão controlada

Ao entrar no Banho B, as áreas de sombra (com pouco revelador absorvido) revelam-se totalmente, enquanto nas altas luzes o revelador esgota-se antes de criar uma densidade opaca no negativo.

6.2. Barry Thornton (Two-Bath Developer)

Thornton buscou máxima compensação e maior acutância que a fórmula tradicional de Adams.

Banho Componente Quantidade
A Metol 6,5 g
A Sulfito de Sódio 80,0 g
B Metaborato de Sódio 12,0 g

A redução do sulfito no Banho A de Thornton visa diminuir a ação solvente sobre o grão, preservando a nitidez de borda, enquanto o Banho B utiliza Metaborato para uma ativação vigorosa, mas equilibrada.

7. Referências Bibliográficas

  1. ANCHELL, Stephen; TROOP, Bill. The Film Developing Cookbook. 2. ed. Focal Press, 2019. (Referência [1.2])
  2. ADAMS, Ansel. The Negative. The New Ansel Adams Photography Series, Book 2. Little, Brown and Company, 1981.
  3. LUYCKX, Alex. Long-Term Review: Kodak D-23. Disponível em: alexluyckx.com. Acesso em: 2 jan. 2026. (Referência [1.5])
  4. THORNTON, Barry. Edge of Darkness. Amphoto Books, 2001.

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