Resenha: Rollei Superpan 200
1. Introdução
Confesso que iniciei minha jornada com o Rollei Superpan 200 um tanto "às cegas". Apesar de ter lido a análise detalhada do Alex Luyckx, falhei em não aprofundar minha pesquisa técnica antes de carregar a câmera.
A única premissa que levei comigo a campo foi o comentário do colega que me vendeu o rolo: "Cuidado, é um filme de contraste forte". Se eu soubesse o quanto essa frase era um eufemismo para a personalidade técnica desse filme, teria prestado mais atenção aos manuais desde o dia um. Mas, como dizem, a experiência é o que você ganha quando não obtém o que deseja.
2. Documentação
Eu deveria ter conferido a documentação oficial do filme em primeiro lugar. Tal como bem disse Linus Torvalds: "Talk is cheap. Show me the code". Na fotografia analógica, o "código" é o datasheet, e ignorá-lo é pedir para ter surpresas no tanque de revelação.
2.1. Página oficial vs. Datasheet: Uma Incoerência Curiosa
A página oficial do filme é um bom ponto de partida. Ela resume as principais qualidades: alto contraste, possibilidade de uso como slide (revelação positiva) e tabelas abrangentes de revelação.
No entanto, ao cruzar os dados do site com o Datasheet em PDF, notei uma discrepância que pode confundir os desavisados.
Na tabela de características (Fact Sheet) apresentada no site, a Latitude de Exposição é classificada de forma conservadora:
| Nominal Sensitivity | ● ● ● ● ○ | ISO 200/24° highly sensitive |
| Sharpness: | ● ● ● ● ○ | very high sharpness |
| Exposure Latitude: | ● ● ○ ○ ○ | ± 1 apertures |
| Resolving Power: | ● ● ● ● ○ | very high resolving power |
| Suitable for BW Reversal: | ● ● ● ● ● | perfectly suitable as slide |
Já no PDF oficial (datasheet), a história muda de figura:
| Nominal Sensitivity | ● ● ● ○ ○ | ISO 200/24° highly sensitive |
| Sharpness: | ● ● ● ● ○ | very high sharpness |
| Exposure Latitude: | ● ● ● ● ○ | ± 1 f-stop |
| Resolving Power: | ● ● ● ● ○ | very high resolving power |
| Suitable for BW Reversal: | ● ● ● ● ● | perfectly suitable as slide |
Observe que no PDF, a Exposure Latitude ganha 4 de 5 pontos, sugerindo uma flexibilidade que, na prática — e corroborado pelo texto do próprio PDF que cita uma faixa útil apenas entre ISO 125 e 250 — não é tão elástica assim. Essa "pegadinha" visual nos gráficos pode levar um fotógrafo a crer que pode errar a exposição sem consequências, o que não é verdade para este filme.
2.2. O que o Datasheet realmente nos diz
Para além das incoerências visuais, o documento técnico é rico e salvou minha revelação (tardiamente, admito). Pontos cruciais que extraí do documento:
- Sensibilidade Espectral: O filme tem sensibilidade estendida ao vermelho (até 750nm), permitindo seu uso como filme infravermelho com o filtro adequado.
- Base PET: Fabricado sobre uma base de Poliéster transparente de 100 microns. Isso garante estabilidade dimensional e uma clareza cristalina, ideal para scanning e revelação como slide (positiva).
- Instruções de Filtros: Há uma seção vital sobre fatores de filtro, essencial para quem gosta de fotografia de paisagem com filtros amarelos ou vermelhos.
2.3. Internet: Filtrando o Ruído
Além das fontes oficiais, a comunidade é vasta. O review do Alex Luyckx foi fundamental para minha decisão de usar o revelador D-23, visando domar o grão. Porém, recomendo cautela: em fóruns e no Flickr, há muita informação empírica que deve ser sempre validada com o datasheet oficial.
2.3.1. Origem e Linhagem: Do Céu para o Tanque
Um detalhe fundamental para entender o Superpan 200 é sua árvore genealógica. Este filme é, na verdade, uma "reembalagem" (rebranding) do lendário AGFA Aviphot Pan 200. Como o nome sugere, trata-se de um filme originalmente projetado para vigilância e fotografia aérea.
Essa herança explica quase todas as suas características peculiares: a base de poliéster (feita para não romper em câmeras de alta velocidade e resistir a variações extremas de temperatura em altitude) e a sensibilidade estendida ao infravermelho, essencial para penetrar na neblina atmosférica durante voos de reconhecimento. É impossível não traçar um paralelo com o Kodak Aerocolor IV (frequentemente vendido como Santa Color ou Amber T400). Enquanto o Aerocolor traz essa tecnologia para o mundo das cores com uma latitude surpreendente, o Superpan faz o mesmo no reino do P&B, porém com um temperamento muito mais dramático e contrastado.
3. Uso e revelação
Carreguei este filme na minha Pentax MX em 22 de Novembro de 2026 e só fui revelá-lo em 2 de Janeiro de 2026. Foram exatos 41 dias dentro da câmera.
Moro em Joinville/SC, e quem conhece sabe: nosso verão é impiedoso. A câmera enfrentou calor extremo, transporte e oscilações de umidade. Felizmente, o datasheet garante armazenamento seguro até 40°C, e o filme provou ser robusto nesse aspecto.
Uma nota importante sobre o manuseio: Devido à base de PET transparente, esse filme é suscetível ao efeito de light piping (a luz viaja pela base do filme para dentro do cartucho). Portanto, carregar e descarregar a câmera na sombra é mandatório.
3.1. Fotometria: Onde o Filho Chora e a Mãe não Vê
Como ignorei o datasheet inicialmente, fui descuidado. Metade do rolo foi exposto confiando cegamente no fotômetro central da Pentax MX, sem compensar para as sombras ou isolar o assunto. O resultado? Onde errei, o filme cobrou caro com contraste excessivo e perda de detalhes.
Link da imagem em alta resolução no Flickr.
| Propriedade | Valor |
|---|---|
| Câmera | Pentax MX |
| Lente | SMC PENTAX-M 1:2.8 28mm |
| Abertura | f/22 |
| Velocidade | 1/250 |
| Filme | Rollei Superpan 200 |
| Scanner | Plustek 8200i |
| Exposição no Vuescan | 1544 |
| Data da Foto | 2025-11-22 |
Com o tempo, aprendi a gostar dessa estética "dura" da foto acima, mas não era a intenção original. Já quando tive cuidado técnico, o filme brilhou. Na imagem abaixo, usei um filtro Hoya K2 (Amarelo) e compensei a exposição em +1 ponto, o que ajudou a separar a neblina da vegetação.
Link da imagem em alta resolução no Flickr.
| Propriedade | Valor |
|---|---|
| Câmera | Pentax MX |
| Lente | SMC PENTAX-M 1:1.4 50mm |
| Abertura | f/8 |
| Velocidade | 1/30 |
| Filme | Rollei Superpan 200 |
| Scanner | Plustek 8200i |
| Exposição no Vuescan | 1544 |
| Data da Foto | 2025-12-20 |
3.2. Revelação com D-23: O Susto da Emulsão
O D-23 é um revelador que eu gosto muito: simples (apenas 2 componentes) e domador de contrastes. Sabendo da fama granulada do Superpan, o casamento parecia perfeito.
Colocar o filme na espiral foi muito fácil. A base de PET é mais rígida e desliza suavemente na espiral Paterson. Porém, o susto veio logo em seguida.
Decidi testar a solução de agente molhante com TEXAPON usando a ponta da lingueta do filme que eu havia cortado. Mergulhei o pedaço na solução e, quase instantaneamente, vi o revestimento cinza escuro da emulsão se desfazendo e boiando no líquido.
Corri para o datasheet e lá estava, na página 4, seção PRE-WATERING:
"Pre-watering is recommended for short development times […] and films with a pronounced anti-halo layer."
O Superpan 200 possui uma camada anti-halo (AHU) solúvel fortíssima. A instrução é clara: banho de água pura por 1 minuto antes do revelador.
Logo se a inteção é revelar em stock para devolver o revelador para a garrafa, a pré lavagem com água para remoção dessa camada é mandatória.
Feita a pré-lavagem (a água saiu preta como café!), segui com o D-23. Programei o tempo baseando-me no D-76 Stock (10 min) + 10%, totalizando 11 minutos.
3.2.1. O erro na agitação
Outro detalhe que deixei passar no datasheet (Página 4, seção DEVELOPMENT):
- Recomendado: Agitação inicial de 60s, depois 5s a cada 30s.
- O que eu fiz: Agitação inicial de 60s, depois 10s a cada 30s.
Essa agitação mais demorada provavelmente acentuou o contraste e o grão, características que o filme já tem de sobra. Felizmente, a ação compensadora do D-23 salvou o dia nas fotos bem expostas.
Link da imagem em alta resolução no Flickr.
| Propriedade | Valor |
|---|---|
| Câmera | Pentax MX |
| Lente | RICOH XR RIKENON 1:2.8 35mm |
| Abertura | f/8 |
| Velocidade | 1/30 |
| Filme | Rollei Superpan 200 |
| Scanner | Plustek 8200i |
| Exposição no Vuescan | 1544 |
| Data da Foto | 2025-12-21 |
Ao final, pendurei o filme no varal e me impressionei. A base PET seca perfeitamente plana (graças à camada Back Layer Anti-Curling descrita no esquema de camadas do datasheet) e é transparente como vidro. Uma beleza de se ver no negatoscópio.
4. Digitalização e finalização
Nota: Este tópico é um resumo contextualizado. O fluxo detalhado será movido posteriormente para a seção específica de digitalização do site.
Como usuário de GNU/Linux, meu fluxo é 100% open source friendly: Vuescan para o arquivo bruto e Darktable para a "alquimia" das cores.
Para garantir consistência, segui o método de travar a exposição (Lock exposure) no Vuescan. Amostrando uma área não exposta da base transparente do filme, o software calculou o valor RGB de 1544. Mantive esse valor para todo o rolo.
Para a inversão no Darktable, utilizei uma cartela de cores RGB fotografada sob luz controlada para calibrar o módulo Negadoctor.
| Propriedade | Valor |
|---|---|
| Câmera | Pentax MX |
| Lente | SMC PENTAX-M 1:4 50mm Macro |
| Abertura | f/13 |
| Velocidade | 1/60 |
| Filme | Rollei Superpan 200 |
| Scanner | Plustek 8200i |
| Exposição no Vuescan | 1544 |
| Data da Foto | 2025-12-29 |
A calibração revelou o temperamento do filme: o Rollei Superpan 200 tem pavio curto. Nas fotos bem expostas, o ajuste foi mínimo. Nas fotos onde errei a medição, a falta de latitude cobrou seu preço, exigindo ginástica no pós-processamento para recuperar sombras que simplesmente não existiam.
Link da imagem em alta resolução no Flickr.
| Propriedade | Valor |
|---|---|
| Câmera | Pentax MX |
| Lente | RICOH XR RIKENON 1:2.8 35mm |
| Abertura | f/11 |
| Velocidade | 1/60 |
| Filme | Rollei Superpan 200 |
| Scanner | Plustek 8200i |
| Exposição no Vuescan | 1544 |
| Data da Foto | 2025-12-25 |
5. Conclusão
O Rollei Superpan 200 é um filme com "personalidade forte". Ele não aceita desaforo na fotometria, mas recompensa o fotógrafo cuidadoso com uma nitidez cortante e uma estética única.
Sua origem como filme de vigilância aérea AGFA explica o porquê de ele ser uma ferramenta tão potente: ele não foi feito para ser "gentil", mas para ser preciso e nítido sob condições adversas.
Link da imagem em alta resolução no Flickr.
| Propriedade | Valor |
|---|---|
| Câmera | Pentax MX |
| Lente | SMC PENTAX-M 1:2.8 28mm |
| Abertura | f/8 |
| Velocidade | 1/60 |
| Filme | Rollei Superpan 200 |
| Scanner | Plustek 8200i |
| Exposição no Vuescan | 1544 |
| Data da Foto | 2025-01-01 |
A documentação da Rollei, apesar da pequena confusão nos gráficos de latitude, é um exemplo a ser seguido: detalhada, técnica e honesta sobre a necessidade de pré-lavagem e agitação específica. A base PET é um show à parte, facilitando muito o manuseio e a digitalização.
Já considero este meu filme ISO 200 favorito até o momento, apesar do custo proibitivo e da dificuldade de encontrá-lo no Brasil. Tenho mais um rolo guardado na geladeira (a 8°C, como manda o figurino!) e o próximo experimento será com o revelador Adox M-Q Borax.
Assim que essa nova alquimia acontecer, voltarei aqui para atualizar os resultados. Até lá, fica a lição: leia o manual antes, não depois que a emulsão começar a boiar!
6. Referências Bibliográficas
- ROLLEI ANALOG. Rollei Superpan 200 - Data Sheet. Disponível em: https://www.rolleianalog.com/wp-content/uploads/2021/07/SUPERPAN200_Data-Sheet_EN_R210701.pdf. Acesso em: 11 jan. 2026.
- ROLLEI ANALOG. Rollei Superpan 200 Product Page. Disponível em: https://www.rolleianalog.com/products/rollei-superpan-200/?lang=en. Acesso em: 11 jan. 2026.
- LUYCKX, Alex. CCRFRB Review 26 - Rollei Superpan 200. Disponível em: http://www.alexluyckx.com/blog/2018/10/15/ccrfrb-review-26-rollei-superpan-200/. Acesso em: 11 jan. 2026.
- AGFA-GEVAERT. Aviphot Pan 200 Technical Data. (Referência técnica para a emulsão original).